Por trás da palavra coragem

Por trás da palavra coragem, sabemos que há uma estrada esburacada. Há desgaste, há estrada percorrida, como também, alguns quilômetros à vista. Sempre achei uma qualidade carregada de bagagem ao dizer para certa pessoa (ou atitude) era corajosa, não pelo meu receio da vida, mas por reconhecer, que para muitos a vida nunca foi palco para aplausos. Mas, é aquele famoso ditado de Maya Angelou: sem coragem, não há virtude.

Essa escritora, essa mulher gênia que recentemente descobri, tem uma entrevista imperdível. O rumo da conversa caminha mais ou menos por aí: “eu mencionei a palavra coragem e eu gostaria de dizer mais sobre isso. Encontrar coragem nos líderes, e em você, que se tornará líder. Coragem é a mais importante de todas as nossas virtudes, porque sem coragem, você não poderá exercer nenhuma das outras virtudes, consistentemente, entende? Não dá pra ser consistentemente gentil ou justo, ou humano ou generoso, não sem coragem, pois, se você não tem, mais cedo ou mais tarde, você parará e dirá ‘é muita ameaça, é uma dificuldade muito alta, o desafio é muito grandioso”.

Maya Angelou tem dessas de revirar nossa colcha de pensamentos. Coragem pode ser também combustível, porque nos movimenta à agir conforme o que acreditamos verdadeiramente. Nos potencializa a traçar uma rota boa – pensando que o caminho é muito mais prazeroso de caminhar quando se sabe por onde está passando. Com quem se está passando. Ao mesmo tempo, combustível por combustível, seria só um fogo sem sentido. Precisamos reconhecer o que nos é legítimo. Abrir faróis, expandir nossas formas de esclarecer a estrada. O que é nosso e nunca será. Quem nos coexiste, quem só existe no mundo. Mesmo com todas as dificuldades e estranhezas do caminho, parece quase um termo repetitivo, mas é fato: sabe quando te perguntam o para quê de existir do jeito que você existe reexiste e nessas horas, as palavras nos fogem? Pois é. Elas fogem porque sabemos que fugir de nós mesmos nunca foi opção.  

Escrever: e daí?

Escrever, definitivamente, não é uma atitude neutra. Pelos contornos das palavras manifestamos tantas cenas que permeiam a nossa rotina, tantos sentimentos, inúmeras ideias que flutuam por aí. Sendo bem sartreano, não há rastro humano que não deixe marca e, cá entre nós dois, escrever, pra mim, é um dos mais valiosos. Costumo dizer que não é a primeira impressão que fica, mas, são as últimas palavras que reverberam e quase sempre são as únicas que ficam na minha memória. “Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos.” As últimas de Vírginia Woolf; “Ainda é tempo de morangos” as últimas do narrador Rodrigo S. M. da novela A Hora da Estrela, “fique em paz antes de partir” um trecho de um filme que uma amiga me contou presencialmente, antes da pandemia.

Por falar em amizades, venho a essa aqui. Tenho uma poetisa e professora (e várias outras coisas) como amiga e costumamos compartilhar poesia e texto um do outro. Quando ela disponibiliza um texto, rotineiramente leio, aponto críticas ou só sinto. Ela, por sua vez, se afeta também, me aponta erros, outras vezes, só se permite. Nesse encontro que um sente e outro permite-se sentir, a gente vai construindo essa amizade.

            Esses tempos, ela havia escrito um texto muito único sobre a temporalidade das coisas e de como existir é sempre um acontecimento do agora, que nos impele a escolher. Eu poderia referenciar ela como uma existencialista, mas, como boa leonina, não iria rotular-se jamais. Ao ler o texto, comentei com ela como foi intenso a realização da leitura e comento de outros textos que escrevi a tanto tempo, nos quais hoje, não fazem mais sentido e por isso, mencionei ter apagado. Lá vem ela e me lança: “olha, acho que você deveria desapegar”. Explico.

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            Ela menciona que já escreveu vários textos que hoje não curte. Nem por isso os excluiu. Mantem eles lá, no seu porta-versos. A intenção não é fazer coletânea dos melhores poemas, nada disso, e pensando bem, até nisso o capitalismo está, né? Enfim, retornando. Desde o começo, o seu desejo em escrever não era gostar para sempre, mas, o plano era escrever enquanto podia, por fazer sentido. Desapegar foi a palavra-chave do momento para eu parar de selecionar os melhores e ver as nuances da onde eu parti para onde eu estou. E aí, tudo ficou com mais cara de realidade ao invés de antologia.

            A nossa história com algo que amamos, principalmente quando se trata de arte, não começa da simplicidade, mas do nosso esforço em querer ser um Shakespeare cafona e inseguro que se camufla em umas palavras usadas no século passado. Por um instante, a gente se esquece das nossas próprias palavras, do nosso jeito, da coloquialidade. Simplicidade nunca foi tão difícil. Depois dessa conversa, eu fui direto no arquivo mais antigo do meu computador e alguns rascunhos que tenho em casa rever o que eu escrevia. Dito e feito. Capenga, óbvio, e a alguns passos de ser meu.

a faísca de nós dois

Existem fragmentos de uma vida que precisam ser relembradas. Recordar é viver. É trazer de novo certos gostos, emoções, episódios. Foi em um sábado gelado de Abril que, uma amada amiga musical me convidou para cantar em uma feira muito querida e amorosa da minha cidade. Curiosamente, a feira chama-se Faísca, e bastou isso, para atear fogo em todas as minhas confianças. A barriga, na hora, revirou. Fiquei amedrontado, inseguro de mim mesmo, da minha própria capacidade de fazer uma das coisas que mais amo, nesse caso, cantar, só que agora em público. Então expressei pra ela esse meu medo. Ela sorriu e mencionou: você não está sozinho, eu toco violão contigo.

Nessas horas solitárias em que a existência assusta, ter um outro do lado, alguém que te acompanha por certos labirintos, com as palavras certas nas horas incertas, é sempre um consolo. Então, vamos lá. Decidimos as músicas no meu ritmo. Cada ensaio um arrepio. Cada arrepio um sentido para me fortalecer. Mesmo assim, o medo aparecia, como um vento frio que assopra na fresta da janela da minha sala. Mostrando-se presente. Ainda assim, minha amiga permaneceu. No meio do caminho, nós avaliamos quem tem mais força. Foram alguns ensaios, uns mais intensos de emoção do que outros. Notamos que quando a emoção embarga a voz, não resta tantas palavras a serem ditas. Nos resta a ação.

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Chega o dia da feira. Tínhamos em média 11 a 12 canções. Amigos próximos foram chegando e acomodando-se nas cadeiras de plástico. Os organizadores da feira vieram, abraçaram-nos e aos poucos, os nós da garganta iam se desatando. Até a minha orientadora apareceu no evento. Mensagens de força e de afeto foram enviadas a mim. A primeira música saiu como uma conversa entre amigos e depois, mais uma, e outra, e outra. Quando vi, uma multidão de mulheres, que estavam fazendo ginástica nesse dia, pararam sua maratona e vão nos ouvir cantar. De repente, éramos todos e todas cantantes de um mesmo momento.

Geralmente, nesse último parágrafo, é a parte em que me permito fechar conclusões sobre a história que escrevo, mas, dessa vez, não vai acontecer. Algumas lembranças permanecem em aberto para que possamos retornar sempre. Aberta à novas sensações. Para não esquecermos do que/de quem é essencial. Serve para mostrar que entre correr o risco de enfrentar o medo ou deixar que ele anuvie a nossa lucidez é sempre uma opção. Depende de quem estamos falando. Sobre quem somos ou o que fizeram de nós.

isso é tão irônico, você não acha?

                Bem, a vida tem um jeito engraçado de aprontar com você/ quando você pensa que está tudo bem e tudo está dando certo/ E a vida tem um jeito engraçado de ajudá-lo para quando você pensa que tudo deu errado e tudo explode na sua cara./ Um engarrafamento quando você já está atrasado./ Um sinal de não-fumantes em sua pausa para o cigarro./ É como 10. 000 colheres quando tudo que você precisa é de uma faca./ É encontrar o homem dos meus sonhos e então encontrar sua linda esposa./ Isso é tão irônico, não acha?

            Alanis Morissette inaugura a ironia de existir de um jeito muito único, como sempre faz em suas canções. Mas quem nunca? A gente se prepara para um plano incrível que nos envolve em mini planinhos que brotam do solo fértil do nosso imaginário. Pluft! Brota os possíveis. Ou melhor, nem precisa ser um plano pra lá gigante, pode ser pequeno. A gente se empenha, no ímpeto de fazer acontecer. E aí, vem uma placa de pare, um impedimento, um vírus, um alguém que retira a peça central do teu edifício – aquela que sustenta toda a sua construção. Isso é muito irônico, né? É. Desmoronamento & construção. Parece slogan de construtora, mas it’s all about nós mesmos.

          Discutindo com um amigo sobre isso, o fato de fazer o que fazemos para ter reciprocidade do outro – seja da realidade, seja de alguém ou de algum projeto pessoal – chegamos a uma frustração conjunta. O sofrimento é o que nos identifica enquanto humanos, né Freud? Fizemos o script (ou achamos isso com veemência) certinho. Limpamos a casa, fazemos reciclagem, vez ou outra vamos a um templo espiritual para balizar nossos atos, alimentamos o pet, fazemos exercício, enfeitamos as relações. Pra quê serve tudo isso, aliás? O que movimenta o outro a nos quebrar as pernas?

Amar é querer estar perto, se longe; e mais perto, se perto. (1).png

             Simples. As pernas do outro. As vontades. As vírgulas de um refrão que é feito por quem escreve e quem canta – não depende só de um. O impulso dos passos em ir embora. Desculpa, não vai rolar. Sem tempo, irmão. Podemos ser intensos e ser quem quisermos ser em face da pessoa que vamos nos construindo no caminho tortuoso que é este aí, e aparentemente, viabilizador de algumas formas de existir, mas, não vai dar pra contar tanto com os passos dos outros. Outras poeiras, outros rastros e caminhos que por mais que ajudemos no percurso, não nos dizem respeito. Tá na hora da gente aprender a ser intenso e fazer o que fazemos porque faz sentido. Porque nos transborda. Pois significa quem somos. Já o outro, é insuportavelmente irônico, né não? Pois é.

 

sobre a saudade e os seus sintomas

           Sente-se. Esse é um texto sobre saudade e todos os clichês e açúcares que nele estão rondando. Pelo seu teor, deve afetar a nossa saúde – mas o que não afeta, não é mesmo? Eu sei, este texto é mais de uma das minhas tentativas de aproximar o que é da ordem do vivido para a ponta da caneta – e para a ponta das letras digitais e da língua, caso seja lido em voz alta. Não tem jeito, saudade sentida torna-se sintoma. Bem estilo Marisa Monte.

            O coração fica mais apertado. O peito dá uma esquentada e a gente jura que não é febre. Talvez uma reação do tempo, porque não? O outono deu sua cara, mas parece que se adiou também. Nada disso, deixa o clima fora dessa. O calor aí, vem de dentro e só se sabe (risos) que queima. Não se sabe bem o quê ou pra quê. A realidade também não é mais a mesma. Olha-se um livro na estante, ouve-se aquela canção repetitiva daquela cantora não binária sem friz no cabelo e como em um piscar de olhos: brota momentos, afetos, episódios de uma série já vista, de um filme já vivido com a(s) pessoa(s) que amamos, com quem a gente pensava ter todo o tempo do mundo – mas eis que o mundo tem o seu próprio. Paciência. Nunca vi palavra mais irritante.

            Eu preciso dizer que todos esses sintomas foram verificados somente em uma pessoa latina, no caso eu, de contexto bem limitado aos cômodos de sua residência classe média, restrita por uma quarentena. Duas frases e um quarto de linha, inúmeros privilégios sociais. Inclusive, saudade também é uma. O que cada um deixa no acervo de sentidos da memória, só nós sabemos. Resta um imperativo como este, de não poder mais sair de casa, que acessamos um arquivo muito secreto. Da ordem do arrepio, da vontade de estar ao lado do outro que te fez/faz tão bem, da surpresa que te fez despontar um riso, dos momentos cantarolantes, das intensidades. De estar perto de quem te lembra o que (como) é estar vivo. A gente se pega controlando o que sentir, até quando. Pois é, saudade é coisa séria.

Amar é querer estar perto, se longe; e mais perto, se perto.

            Mas eis uma revira-volta. Um passarinho me disse que adora sentir saudades. Eu, com todos os meus sintomas, perguntei (com a dramaturgia que corre nas minhas veias) o porquê. Eis a minha resposta: pela simples vontade de querer estar. Tem a impossibilidade de não estar, tá, isso estamos fartos de saber. Mas o sentido é outro: o de não ser um peso querer ficar. É parecida com aquela frase conhecida que o Caetano costuma cantar: “saudade até que é bom, melhor do que caminhar vazio”. Eu, saudosista que sou, não percebi o quão privilegiado também é, ser alguém que um outro alguém sente saudade. Isso é mágico – e já quero que essa quarentena acabe.

Seja bem vindx, 2020

           Clarice Lispector costumava a frequentar cartomantes, uma atividade que faz total sentido com o seu lado inquieto diante do incerto e do que um suposto destino a reservava. Lygia Fagundes Telles, em uma entrevista comentou sobre a época em que pegaram um voo juntas. Lygia, com medo de morrer, indagava se Clarice não tinha esse mesmo medo (procurando um temor em comum em horas desalentadoras). “Lygia, eu fui na minha cartomante e ela disse que eu irei morrer na terra, então, não será aqui”. Na época, essa frase desvelou em Lygia, um alívio suficiente para passar por isso. Quase como um deja vú, lá estou eu, no quarto dia do ano, na despedida de uma amiga, tirando minhas cartas em um tarô. 

         Depositar a própria vida na leveza de uma revelação gráfica-ilustrativa-mágica de uma carta pode ser incerto – como também não. Mas, tá. Lá fui. Minha coragem é a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir, não é Clarice? Dito e feito. 2020 veio, assim como outros anos (e anos que virão) para quebrar e refazer. Dois verbos aparentemente doloridos, mas, que precisam ser escritos nesse texto. Perdoe o drama, mas, vamos ao que quero dizer.

      Se quebra, é porque uma vez foi-se inteiro. Completo de véus significativos, memórias, vivências, por vezes ilusões. Quantas coisas 2019 não reuniu e foi lindo vivê-las juntas? Do jeito que foi, no encontro que deu e na expressão que foi possível ser. Degraus de delírio e todas as nuances que a loucura pode ser. Uns dizem amor, outros, realidade. Não adianta querido coração, quebrar você pode ser dolorido, mas por vezes, as nossas melhores (únicas) asas que temos para encarar um horizonte são feitos com as suas pontas. Como todo ano, há sempre um horizonte que eu não faço ideia do que me aguarda. Mas, o curioso são as cartas, digo mais: 

         Lá estavam elas. Uma, dizendo para ter paciência diante daquilo que não é, no momento. Já ouviu a primeira rachadura? Continuarei. Ser paciente diante do que não posso mudar e muito menos esperar que mude. Mudança costuma vir de um desejo além do nosso, quando se trata de outrém. Outra, uma chave, que revela portas que se fecham e ao mesmo tempo que se abrem, quando estão confortáveis e preparadas para isso. E a última carta, mostrou o que tenho hoje – e que sorri na medida em que aceito o que me é expresso. Aí está 2020. Isso e tantas coisas outras. O gostinho só me foi dado pelas cartas, até agora. Que venham mais agoras.

Sobre despedidas

E que, ao dizer adeus a tudo, encontramos algo dentro de nós que não se perde. (Elizabeth Kübler-Ross)

             Despedidas costumam ser eventos difíceis de experienciar. Ninguém deseja perder a parte que nos constitui. Seja motivo, sejam sonhos, seja aquela pessoa especial que nos lembra diariamente o que é ser humano, esse amontoado de potências e metamorfoses. Finais de ano são, para mim, parte de uma despedida valiosa, com tonalidades diferentes, mas, feito de cores verdadeiras que reluzem, umas mais que outras.

            Quase como uma tela, uma vida se colorifica. Alguém se despede. Projetos se concretizam. Velas se apagam. Buquês são pegos ao ar. Expectativas se esfacelam. Outras, são ressignificadas. Alguém nos fere. Outros, nos curam. Um dia, escrevemos versos, outros, textos teóricos. Sonhos são realizados, outros são deixados na antessala do brilho nos olhos. Uns dias, Lana Del Rey, outros Beyoncé. Lágrimas caem, forças são acrescidas. Erguem-se muros, outros dias, pontes.

            Em um curto período de tempo, nos despedimos de quem fomos, indo adiante a quem desejamos ser. Costumo pensar o passado como resultado de um conto clássico. Delicioso de revisitar, ás vezes pesaroso, mas, sempre uma aventura cravada pela memória, cheia de resíduos de perfumes que ficaram, afetos e laços. Mas como toda leitura, retira-se sempre reflexões novas desde a primeira vez lida, reconhecendo que aquela história não nos serve mais, além de uma boa ficção.

            Por dias fiquei aterrorizado com a transitoriedade da vida pelo seu surgimento tão de repente. Como assim, de repente fez o pranto? Como assim, de repente não mais que de repente, as coisas terminam? Pois é. É de repente mesmo. A gente se despede de partes da nossa estante de vivências para dar espaço para outras. As despedidas servem para nos defrontarmos com esse vazio na prateleira, vazio de sentido, de presença que deu espaço pra ausência.

O charme do vazio, por mais louco que seja reconhecer isso, é que ele nos alerta  ao fato importante no momento – e que daqui a pouco, ou alguns meses, não será mais. Nos alerta a olhar para quem fomos e ver o que nos é essencial após ter vivido. Olhar para o Thiago de antes e ver que o Thiago de agora, borbulha sonhos maiores, não se contenta com pouco e sabe que existe vida após um amor muito mal vivido. Olhar para Clarices, Fernandas, Andreias, Lygias, Drummonds, Simones e outras imensidões que fomos e que prosseguiremos sendo e ter coisas a dizer, afetos para sentir e motivos para viver.

Attraversiamo

Determinado rochedo, que demonstra profunda resistência se pretendo removê-lo, será, ao contrário, preciosa ajuda se quero escalá-lo para contemplar a paisagem” (O ser e o nada, de Jean-Paul Sartre, p. 593).

            Rever filmes é uma prática que costumo fazer quando tem algo ali, naquela trama, naquela cena, que me inquieta. Uns pontos de interrogação repentinos, que eu não faço a menor ideia de como foram parar ali e de como começar a responder, sem falar nos tantos outros sem resposta. E outros, já ressignificados, outros, já apagados de vez. Voltando aos filmes, não tenho a pretensão de fazer uma síntese-resenha de Comer, Rezar e Amar, da brilhante Elizabeth Gilbert, interpretada pela incrível Júlia Roberts, mas, o que eu desejo fazer é só expandir uma palavra manifestada na história: attraversiamo.

            Em sua ida à Itália, Liz (já sou íntimo, pela vigésima vez que vejo esse filme) vai até uma cantina estilo histórica com o seu professor de italiano para aprender um pouco mais do idioma até então novo, indo além dos dicionários, as descrições fonéticas e, lógico, também para comer uma muçarela daquelas. A saborosa palavra daquele momento era essa. Attraversiamo significa “vamos atravessar”. Um imperativo ousado e eu até diria simples, mas, de nada simplificado. Geograficamente, Liz atravessa o mundo. Vai à Itália, passa pela lama na Índia para chegar ao castelo em Bali. Para além disso, atravessa outras pontes em busca de vários pontos de interrogação bruscamente originados por um divórcio dolorido e um seguinte relacionamento curto, porém, intensamente marcado por desentendimentos e outras tonalidades de dor nessa tela abstrata de sua vida.

     Atravessar pode significar ir de encontro a um lugar outro, desconhecido, extremamente ousado. Não sabemos a distância do passo. Será firme? Será possível me sustentar? Se lar é onde o meu coração está, será lá meu lar? Será lá um outro lugar que poderá gerar outros ferimentos ou outras cicatrizações? Somos duvidosos quando se trata de atravessar, porque sabemos que não iremos deixar o passado para atrás. As marcas do tempo são sensíveis à pele, à memória, ao olhar, que já mudou e cravou quem somos. A questão não é essa. Atravessar significa também prosseguir perdoando as feridas, os dentes perdidos, as brigas ganhas e outras fracassadas. É dar sentido para o que muitas vezes não tem, mas que por incômodo, tivemos que significar, para sair da dor conhecida e ir para uma outra coisa – podendo ser muito mais proveitosa.

            Atravessar pode ser sozinho, solo, divorziata. Atravessar junto. O que conta é dar um passo para descobrir qual pé sustenta esse jeito diferente de ir adiante. Atravessar é descobrir que nessas horas, a gente precisa confiar na força dos próprios pés. Tarefa trabalhosa, isso é fato. Mas, Elizabeth Gilbert deu essa deixa pra mim. Tem como não amar?

Coração elástico

       Tem uma música da cantora Sia que me instiga muito quando penso em nós, humanos demasiadamente humanos, enfrentando as adversidades desse mundo, mundo, vasto mundo. No refrão, a cantora, em plenos pulmões, vocifera: eu tenho uma pele grossa e um coração elástico. Isso é fato, temos mesmo. Coração que aguenta e com certeza já aguentou muitos puxões de orelha, rasteiras, que levou socos, ponta pés de amores amargamente vividos, de perdas abruptas, de emoções efervescentes e uma lista infinita de coisas que foram acontecendo, e aos poucos, esse coração elástico foi quebrado e reconstruído. Ás vezes em cacos tão pequenos que não se sabia até que ponto você conseguiria reconstruir. Mas, coração elástico tem dessas de se refazer mesmo diante da fragilidade.

            Coração nunca foi tão simples quanto se pensa. Coração pulsa vida e às vezes, ela é dolorida. Vida é matéria complicada de se passar vivendo. Principalmente quando os parâmetros de ser, na atualidade, não correspondem mais a quem realmente somos. A gente se perde em uma falsa felicidade de outrem, nos preenchimentos que não sustentam mais a nossa carência de afeto genuíno, de compreensão e tantos outros padrões que não levam em consideração o nosso sofrimento. A dor é real oficial. Temos uma pele grossa e um coração elástico, sem dúvidas, mas, antes que esse elástico se parta de uma vez por todas e essa pele não sustente mais tantas pancadas, precisamos sair da linha de tiro. É sério.

Sentar. Respirar. Seguir. Sentar para se lembrar que o cansaço não deve falar mais alto que os sonhos. Respirar para ter combustível circulando pelo corpo – que é transporte de vida e invólucro. Seguir para n (1).png

            Setembro amarelo sempre me faz pensar nas dores de todos/as que sentem que não dão conta do mundo adoecedor em que vivem. Eu mesmo também não sei como dar conta de tudo, fiquem em paz, mas só queria dizer, para os nossos corações elásticos, que somos suficientes. Isso significa que o outro é importante, mas não é parâmetro de como viver. Se dói, acolha a dor, se tá de pé, senta, se não dá conta, respeite os seus limites. Dói ser humano mesmo. Sobrevivemos a tantos caos, mas, como diria Fukumitsu, se tem vida, tem jeito e se tem jeito, já diria eu, podemos descobrir um mais leve e possível de viver.

O caminho e as avalanches

Viver é participar do caminho enxergando a beleza e a feiura que nele há. Desviar das pedras quando possível e escalá-las quando necessário. Retirá-las para quem vier atrás não se machucar. Olhar para o caminhante ao lado, ajudá-lo e ser ajudado por ele. Olhar para trás, de vez em quando, e se alegrar com o caminho futuro e o que virá. Olhar o agora e agradecer o caminho presente. (Ângela Russi – Papel Machê, crônica: Caminhando, p. 18)

          Fazer viagens para mim não é uma atitude fácil. No meu caso, veio pela necessidade de apresentar um trabalho escrito por dois anos a fio. Decidi enobrecer ele apresentando em uma universidade distante de onde eu vivo. Pois é, nossos projetos nos guiam a realizar tantas coisas que estão distantes das nossas zonas de conforto. Quando vi, estava na zona de confronto: desassossegando o mundo, planejando estadias mais próximas (e longes), vendo deslocamento, alimentação, dias para ficar, nãos à dar para compromissos que atravessam o objetivo, os medos, ansiedades, os vários motivos que roubam as nossas noites de sono. Tudo isso junto. Como eu disse, zona de confronto. É sempre avalanche: vem com tudo e mais um pouco.

             Nunca fui de amar as avalanches, para ser sincero. O mar calmo sempre reluziu os meus olhos e deu paz ao meu coração – que não é selvagem e não tem pressa de viver. Mas, de vez em quando, vai, eu topo, mas aquelas perguntas sem respostas ficam martelando. Será que virá outros? Será que estou preparado para novas avalanches? Será que eu dou conta? Porque não pode ser uma ondinha leve que deixa resquício de lembrança? Porque raios tem que ser avalanches?

Sentar. Respirar. Seguir. Sentar para se lembrar que o cansaço não deve falar mais alto que os sonhos. Respirar para ter combustível circulando pelo corpo – que é transporte de vida e invólucro. Seguir para não s.png

            Pera lá, sossega. Como diria minha fada madrinha: simplicidade requer esforço. Pode ser que venha avalanche. Outras vezes, venha terremoto, outras, ventania e em uns outros dias afrente, um sol bem gostoso para fazer fotossíntese. O importante é que é desimportante pensar no que virá. É mais simples, sobretudo, quando se detesta viajar e enfrentar as avalanches, fazer três coisas. Sentar. Respirar. Seguir. Sentar para se lembrar que o cansaço não deve falar mais alto que os sonhos. Respirar para ter combustível circulando pelo corpo – que é transporte de vida e invólucro. Seguir para não se esquecer que viver é transformar avalanches em histórias boas e também, movimentar-se para frente.

            Como eu disse, viajar não é o meu forte, mas, sempre poderei simplificar. O trabalho? Floresceu junto com os outros trabalhos apresentados. A avalanche passou e me deixou bastante cansado. Nessas horas, costumo retomar: sentar, respirar e seguir…