Um dia desses, me preparando para um seletivo em que ia concorrer a uma vaga para Psicólogo (uma realidade tão presente e penosa em que vivemos), senti um peso gigante em mim. Mais localizado ali, perto dos pulmões, onde a respiração fica alta demais. Se até isso mudou, já sabemos o que era. Viver hoje, em começo (e recomeço) de profissão é um aperto pulmonar: não sabemos se teremos a vaga, mesmo com o número de concorrentes não sabemos se eles irão assumir ou não, se o serviço é cilada ou é possível, se irei ficar isolado por um sintoma de COVID-19 no meio do caminho e se, e se, e se…
Meu peito estava carregado de incertezas. Cruéis perguntas cujas respostas eu não fazia a mínima ideia. Quando uma pergunta aparece tão difícil assim, costumo pensar para quê elas servem. Parece ser um exercício bobo, eu sei, mas, é só nesses momentos, pude perceber: para quê me servem respostas sobre fatos que nem aconteceram ainda?

breve ilustração de pinterest que encorpa a cena do meu caos
Na hora, é sempre um fazer algo de nós mesmos que até então desconhecíamos. Se por acaso soubéssemos, seria um lindo ensaio - e viver é melhor que sonhar, ainda nos momentos de caos.
Tem um trecho do Tabacaria do Álvaro de Campos bastante ilustrativo sobre isso: Fiz de mim o que não soube, e o que podia fazer de mim não o fiz. Minha terapeuta sempre me recorda gentilmente da nossa falsa sensação de controle sobre o outro e o mundo. Nesses lados, o que nos resta de controle é muito pouco, raso, pequeno. Mesmo se eu soubesse as respostas para a vaga, para as condições de trabalho, para os concorrentes, para o meu futuro, na hora de acontecer, iria ser totalmente diferente.
Na hora, é sempre um fazer algo de nós mesmos que até então desconhecíamos. Se por acaso soubéssemos, seria um lindo ensaio – e viver é melhor que sonhar, ainda nos momentos de caos. Eu adoraria escrever no final dessa crônica sobre o resultado final deste seletivo e mencionar “quem acredita sempre alcança”, porém, o mundo não é aquilo que penso, mas aquilo que vivo: ainda sem respostas. Te digo mais: quando houver respostas, aí decidimos o que fazer. Tão de repente, minha respiração voltou ao seu devido lugar.




