Fiz de mim o que não soube

Um dia desses, me preparando para um seletivo em que ia concorrer a uma vaga para Psicólogo (uma realidade tão presente e penosa em que vivemos), senti um peso gigante em mim. Mais localizado ali, perto dos pulmões, onde a respiração fica alta demais. Se até isso mudou, já sabemos o que era. Viver hoje, em começo (e recomeço) de profissão é um aperto pulmonar: não sabemos se teremos a vaga, mesmo com o número de concorrentes não sabemos se eles irão assumir ou não, se o serviço é cilada ou é possível, se irei ficar isolado por um sintoma de COVID-19 no meio do caminho e se, e se, e se… 

Meu peito estava carregado de incertezas. Cruéis perguntas cujas respostas eu não fazia a mínima ideia. Quando uma pergunta aparece tão difícil assim, costumo pensar para quê elas servem. Parece ser um exercício bobo, eu sei, mas, é só nesses momentos, pude perceber: para quê me servem respostas sobre fatos que nem aconteceram ainda? 

breve ilustração de pinterest que encorpa a cena do meu caos

 Na hora, é sempre um fazer algo de nós mesmos que até então desconhecíamos. Se por acaso soubéssemos, seria um lindo ensaio - e viver é melhor que sonhar, ainda nos momentos de caos. 

Tem um trecho do Tabacaria do Álvaro de Campos bastante ilustrativo sobre isso: Fiz de mim o que não soube, e o que podia fazer de mim não o fiz. Minha terapeuta sempre me recorda gentilmente da nossa falsa sensação de controle sobre o outro e o mundo. Nesses lados, o que nos resta de controle é muito pouco, raso, pequeno. Mesmo se eu soubesse as respostas para a vaga, para as condições de trabalho, para os concorrentes, para o meu futuro, na hora de acontecer, iria ser totalmente diferente. 

Na hora, é sempre um fazer algo de nós mesmos que até então desconhecíamos. Se por acaso soubéssemos, seria um lindo ensaio – e viver é melhor que sonhar, ainda nos momentos de caos. Eu adoraria escrever no final dessa crônica sobre o resultado final deste seletivo e mencionar “quem acredita sempre alcança”, porém, o mundo não é aquilo que penso, mas aquilo que vivo: ainda sem respostas. Te digo mais: quando houver respostas, aí decidimos o que fazer. Tão de repente, minha respiração voltou ao seu devido lugar. 

Caminhão de mudança

Tempos de mudanças começam de supetão. Estou dizendo mudança de casa, mas, isso pode ser empregado à tantas formas de mudar, né? De todo jeito, a notícia de começo, parece ser algo bastante simplório. Ah, mudarei algum dia, não sei quando, mas vou. É no olho do furacão do vou onde mora a dificuldade.

Encaixota-se planta, roupa, carta, perfume, panela, plástico, usamos caixa de papelão, outras caixas dentro de caixas, umas de madeira, outras (para ser mais técnico) de pallet, usa-se saco preto, saco de mercado, outras coisas vão penduradas pelo caminhão. Organiza-se tudo para não achar nada depois. Transporta no caminhão da mudança para lá e para cá, a gasolina do carro fica na reserva, de repente, torneiras, pregos, suportes precisam ser comprados, de repente cem reais em vinte minutos se foram. Fura parede, organiza planta, fura parede, organiza armário, organiza nichos, fura parede, organiza tevê, quadro, prateleira. Abre caixa e pergunta-se “para quê eu usava isso?”, é suporte sem tapa, boneco de garrafa pet, boneco dos anos 80… ufa!

Teve dificuldade lendo isso? Pois é. Se ficou difícil de respirar lendo, imagine vivenciar. A parte mais delicada disso tudo foi transportar os bichinhos. Aí, é que o fôlego se perdeu. O cachorro e os gatinhos foram no meu pé e o mais curioso foi a experiência de mudar para cada um. Téo, o cão hiperativo, ficava sorridente com a língua de fora querendo colo, festa, morder os dedos enquanto recebia carinho. Brincávamos que ele, se por acaso falasse, gritaria: “Quando a gente vai chegar?! Ai que lindo, quero brincar logo, vamos, vamos, vamos!”. Pelo todo embaçado porque não deu tempo de ir para o pet shop. Já Clarice, a gata soberba, olhava com desprezo e classe, deitada na minha coxa esperando a residência nova. Seu estilo verbal seria outro, mais ou menos assim: “ai cachorro alegre, menos por favor, só quero minha casa”. Agora, Caetano foi mais difícil. Gato antissocial, amante das orgias felinas e dos sarais noturnos, chorava no carro: “nãaaaaaaaaao, minha casaaaaaaaaaa, alguém me tira daqui Brasil, meooooooooow, meoooooow”, ô miau dolorido, parecia que arrancaram uma parte dele – e de fato tínhamos mesmo, mas, já chegando na casa nova. Caetano desde tenra idade, era amante da casa, nós, meros humanos, não tivemos chance. Ainda por cima, ele teria que reconhecer o local, deixar seu cheiro, localizar a caixa de areia, tudo de novo. Não é fácil essa vida de gato.

As nuances dessas experiências disseram muito sobre mudar. Experiência da mais amável possível, dos bichinhos de estimação. Mudar pode gerar indiferença, por reconhecer que é algo necessário. Quase como um pensamento aquariano, torna-se óbvio pensar na impermanência da vida: nada fixo, nada permanente. Um mantra budista circunscrito na história mais uma vez. Além disso, mudar gera euforia. Imaginamos como pode ser viver em outro canto, como será reorganizar todas as coisas e seus novos lugares, o ambiente do lugar, o espaço. Ao mesmo tempo, pode ser desesperador. O que faremos depois disso tudo? Nos reconheceremos novamente como antes? Será que quando formos dormir, vamos acordar perdidos? Vamos encontrar o perfume no lugar em que botamos? E as caixas, qual é a certa, qual é rejeito?!

Mudar é tudo isso e mais um pouco. Em uma versão minha, depois do terceiro dia de mudança, posso dizer que tem um momento em que construímos de fato um lar. Com laços diferentes, com um olhar mais detalhado, mais cuidadoso. Não somos mais os mesmos e nem desejamos. Queremos deixar tudo nos conformes, mesmo sabendo que tudo irá se desorganizar novamente. Queremos ambientar o coração na sua estética mais plena em uma casa: pulsante, constante e quente. Repetindo um clichê aplicado a vida cotidiana: lar é, sem sombra de dúvidas, onde habita o coração. 

Balanço final

            Eu me lembro do final do ano de 2019, assim como me lembro dos finais dos outros anos que hoje estão alinhados nos amontoados da minha história. Seja vivida ao lado de amigos, familiares, seu bicho de estimação (e seus judiados ouvidos neste período), seu guru, seu mestre, sua festa ou seu ente deste mundão, é uma experiência solitária. Tá se sentindo contrariado por essa afirmação? Prometo ser cuidadoso com você por agora (mas só por agora).

         Tem o Roberto Carlos e o mesmo repertório. Tem a retrospectiva e as mesmas penúrias e tragédias sociais (a mesma frequência, nunca o mesmo impacto). Tem as bebidas e todos os motivos que você acredita ter para entortar o gargalo, entortar o humor e a vida naquele instante de glória, pois, ufa! passou, mais um ano. Não morri, nem matei (ainda). Tem os desejos de benquerença e todo o conto de fadas desejado para o ano seguinte: querer um só dragão em trezentos e sessenta e cinco dias, uma espada, uma vitória e o resto de tranquilidade. Desejamos que o mal seja decapitado por um decreto, que o totalitarismo seja erradicado, assim como a fome, o preconceito, a corrupção, o genocídio negro e trans, as desigualdades sociais e claro, aquele parente homofóbico.

            Tem o momento dos fogos de artifício em toda sua beleza e desespero por conta do encanto e do castigo aos ouvidos dos caninos e felinos. Tem os abraços, para alguns sortudos, beijos, declarações de amor, pedidos de casamento, pra outros, términos, divórcio, tudo isso em uma ordem aleatória ao que estou escrevendo. Tem a parte de ser, neste ano especialmente, pandemia e possivelmente, várias destas linhas não estejam presentes (ou estejam, lembrando os furos na quarentena). Neste ano, tem a marca de 189.220 mortos, hoje, o dia 24 de dezembro. Tem a parte do feliz natal e próspero ano novo. Veja só, uma multidão nos distrai para o fato que nos leva até aqui: a parte de balanço final.

           

Em algum momento, acontece um olhar cabisbaixo ou um momento de introspecção. Será efeito colateral do champanhe barato, do destilado? É efeito da sobrevivência. Estamos vivos depois disso tudo, e agora? Por mais imóvel que passemos um ano, confinados nas nossas mais tenebrosas paranoias e mais altos muros, as marcas chegam. O medo, a cautela não protegem. O sol queimou a pele, a ansiedade foi abrindo suas garras, a tristeza, a raiva, a alegria, o descontentamento, as emoções tingiram e desbotaram o nosso olhar para alguém e para alguma coisa. A conta chega, as exigências, a pressão, a flexibilidade, as limitações. Ileso não passamos.

Pra quê ficar com a cabeça baixa? Pois bem. Chega uma hora que a cabeça abaixa em relação ao outro, para se defrontar tête à tête e perguntar-se: valeu a pena? Essa conta de viver, dá para contar? Tem saldo positivo ou negativo? É uma pena termos inspiração para pensar no que realmente importa só no final, logo quando chega o começo. Nos perdemos por tão pouco. Antes que seja tarde, pense. Antes que seja começo, repense finais.

Sobre soprar asas

O momento da despedida de alguém muito querido é o instante mais precioso da vida, pois, nesse desenlace, percebemos o cuidado e o carinho genuíno de alguém para dizer o quão importante foi essa união e o quão necessário se faz ir embora. A arte mora neste fio tênue entre impulsionar voos e dizer adeus. O desenlace só ocorre fisicamente, porque no correr da nossa existência, a ausência se faz presença como saudade nesta finitude em que vivemos todos os dias, no peito, nos gestos, nos passos, nas memórias e onde quer que for. O último dia é o que fica. Valter Hugo Mãe, quando escreveu As mais belas coisas do mundo, narra sobre sua relação com o avô e sobre o que aprendeu com ele.

Seu avô tinha o deslumbramento para o mundo como uma criança tem quando se depara com o inesperado. Ele dizia ser urgente viver encantado. Que desilusão é atitude de quem já está morto por dentro, porque o deslumbramento é muito mais gratificante ao invés da precipitada espera em ser decepcionado no futuro (essa astronave que não sabemos pilotar). Dizia que viver é continuar procurando, igual a um detetive, para quando encontrar o que se procura, de fato aprender a ser mais cuidadoso. Viver espalhafatosamente não seria a melhor virtude, mas, saber sempre quando retornar à casa era uma boa estratégia. Essa morada singela que se constrói dentro de um abraço. Que nem tudo que tem preço tem valor e muitas vezes, o que se tem valor, é de graça.

Um belo dia, esse avô precisou morrer e deixou a ele todas essas aprendizagens. O mais gostoso dessa beleza triste que é perder alguém, está em perceber partes da pessoa na pele. Saber que o riso sempre vai ser mais vivo quando guardado dentro da memória. Reconhecer todas as revoluções feitas juntos, prévias dos enfrentamos do hoje. Lembrar das piadas que um dia foram inéditas e hoje, restou além de humor, um saudosismo delicioso. Tudo foi vivido e por ter sido afeto, valeu a pena. Por não ter medido esforços, valeu a pena. Por ter sido abundante e intenso, valeu a pena. Como eu disse, existe uma diferença muito particular entre soprar as asas de alguém e despedir-se inteiramente. Os caminhos se tornam mais prazerosos quando há trilha certa para retornar e isso é viável na primeira opção. Na segunda, podemos ouvir as portas fechando-se e sem chance de retorno. Entretanto, nos dois jeitos de voar, sempre há uma visão avassaladora de um futuro, que nos reserva imprevisões, longas jornadas e ótimas vistas. Ainda tem gentileza de convidar a rir ou chorar.

Dia 18, último de dia de emprego neste aninho tão caótico.

Dia de sentir o vento soprar minhas asinhas.

Sobre o (a)mar

De repente, você está de frente a uma imensidão. Você e aquela vista gigantesca do mar na sua frente. Provavelmente, você está em umas daquelas férias planejadas (ou não) pensando ser lá o seu lugar de paz e descanso depois de um ano inexoravelmente intenso. Cá está você, sobrevivente. Você, cheio de dúvidas, avistando o mar repleto de certezas. A primeira vez que vi o mar tinha uns dez anos de idade e tudo o que eu poderia imaginar dele era como eu poderia mergulhar e abrir os olhos no fundo sem arder por causa do sal. Na última vez, eu só o avistei, sabia que tinha me afogado em ilusões bem terrestres, mas, estava prestes a voltar para a superfície. Só não fazia ideia de como começar.

Começar parece muito com este remar em mar aberto, que te enfrenta, te leva para lugares desconhecidos e por ventura, você tenta revidar. Uma vez estando com a cabeça fora do mar, os olhos se abrem com mais facilidade. Começar é muito parecido com isso: estar com os olhos abertos depois de vários enfrentamentos. Para variar, na última vez que vi o mar, ele apareceu para mim nos primeiros dias de dois mil e vinte. O futuro já estava se apresentando de um jeito diferente.   

Quando atirado ao mar: eu que lute. A retrospectiva de um ano de impedimentos parece ser uma péssima alternativa de programa. Apesar muitas mortes, esse ano foi muito parecido com o mar. Fazendo-se e esfacelando em ondas. Tudo o que tínhamos de concreto desmoronou para novos projetos serem viáveis. Muita gente morreu para deixar um vazio diferente a ser sentido e muita memória foi honrada e resgatada. O afeto fez falta como presença e tivemos que descobri-lo na ausência, no egoísmo fascista de líderes, de pessoas da nossa bolha. Tivemos que redescobrir a gentileza na apatia, a convivência e a sobrevivência em meses de isolamento social. Ressacas morais e éticas prosseguem. (A)mar calmo foi o que fez dos navegantes deste ano, bons marinheiros. Um dia, se vê o amor, no outro se despede, mais frente se encontra de novo para permanecer na eternidade de uma vida. Descobrimos que eternidade tem mais a ver com intensidade do que permanência. Que cinco anos de um curso universitário se finalizam. Amigos se vão e seus afetos edificam nosso ser. E a gente?

A gente fica de frente para o mar.

Quando lançado nele, navegamos por ele, todos os anos.

E tentamos não se afogar.

O encontro perfeito

Você se programa. Corta os fios indesejados da barba, desenha o rosto pela dança da gilete entre os fios, entre o espelho e você. Relação olho no olho assim, como quem se pergunta o desenrolar dessa noite. Você escolhe o lugar perfeito para ir. Convida. Opa, foi aceito o convite. Não precisa buscar, ele vai sozinho ao lugar. Será um encontro sem previsão, filme sem trailer: nem foto foi mandado, o pacote completo será aberto na hora da certeza de se encontrar. Ô nervosismo.

As borboletas se parecem muito com as vespas dançando de cá para lá, de lá para cá no estômago. As gotas de suor pingavam, será medo, será que ele vai de bermuda ou calça, esse perfume está muito forte mas aquele outro talvez não combine com o clima de dentro, do mundo, das energias, como se elas importassem agora. Parece que sim, neste relance antes do encontro, todas as desimportâncias importam.

E a hora não passa. Faltam trinta minutos.

Parece nada estar certo. Ao banho você retorna. Ensaboa o corpo, hidrata o coração: é hoje que você irá se permitir com alguém. Difícil né? O sabonete ao tocar as suas profundas dúvidas se isso iria dar certo, passa ligeiro. Nada de pensar, nada de gatilho. Você se envolve das melhores ousadias jamais usadas: você pretende ser a melhor escolha da noite e o prato principal ninguém sai antes de provar. Se der tempo para sobremesa, o jogo está ganho. Antes disso, limpa coração, limpa os resíduos da insegurança.

Veste de si mesmo. Olha no espelho e se vê como jamais vira antes: é hoje.

Abre o carro, bota uma canção do Khalid e nada parece ser melhor que isso. Já são 15 minutos para as oito, as reservas estão lá e ele nada de mensagem. Talvez o trânsito, o jogo dos desinteressados, o jogo da sedução que nunca pensava ser jogo. Quantas coisas pensavam não ser coisas e só sensações. Como sentia falta da simplicidade. Sapato nem tão chic nem tão surrado. Coração nem tão sangrento, nem passado: ao ponto de disparar.

Você entra no restaurante. Luz baixa, conversas de canto de ouvido, arrepio na certa. O lugar te chama para o romance. Lá, está você, na hora. Ele não responde as mensagens. Na esquerda, tem um casal dividindo um café, quase uma releitura de a Dama e o Vagabundo. Pela direita, os garçons se olhando após você dizer que estava esperando alguém.

Passam-se vinte minutos. Você rola as mensagens e ao menos está visualizado. Desde a primeira é lida, em busca da resposta: será que ele mencionou atrasar? Não consta no texto. Passam-se trinta minutos e você pede uma entrada e um garrafa de vinho com duas taças. Talvez ele venha. Vinho tinto, sangue efervescente perdendo as espumas do desejo. O que lhe faltou? Vontade? Uma roupa? Um motivo? Talvez. Quando percebeu, a garrafa de vinho se foi. O garçom, passa do lado. Pergunta se ele está esperando alguém e não foi correspondido.

Você diz sim.

O garçom senta e diz que sente muito.

As coisas voltaram a sentir. A noite só está começando.    

Fertilizante

Ganhei uma planta chamada jiboia, uma espécie que eu queria muito colocar no meu quarto. A grande graça dessa planta é que seus galhos vão descendo do lugar onde estão alocadas e vão enroscando-se nos móveis, ficando maiores e tomando conta do espaço. Nada mais lindo do que isso pra mim. Depressa, arranjei um lugar para ela em cima da minha estante de livros no quarto e fiquei ansiosamente em aguardo pelo seu crescimento.

            Havia um só porém. Ela havia sido plantada com um galho no meio, juntando as mudinhas menores com as maiores. Para ela conseguir ocupar o espaço que eu gostaria, eu deveria retirar o galho. Levei ela para um espaço mais arejado e fui tentando retirar, mas, jurava que seria uma tarefa fácil. Grande ilusão da minha parte. As mudas pequenas tinham se enroscado no galho, impedindo de alcançar a terra. Os ramos maiores estavam emaranhados em outros ramos, apenas tocando na terra, não em profundidade, sem grandes raízes. Quando retirei o galho, ficou um vazio gigante no vazo. Tive que preencher o meio com a areia do próprio vazo, replantar as mudinhas que estavam amontoadas, desconexas, mas, o resultado foi um pequeno fiasco.

            Suas folhas começaram a amarelar. Planta costuma ser de uma delicadeza diferente da nossa. Podemos fingir, apaziguar nossas angústias em algumas máscaras do dia a dia. Tira a felicidade, bota a apatia, limpa a tristeza e coloca na gaveta para depois. Amarelamos por dentro e se por acaso empalidecemos por fora, dá para fertilizar de vários jeitos. Com a minha plantinha, tentei colocar mais terra, fertilizante, tirei do lugar, botei para fora no poço de luz e nada. Sentia estar fazendo tudo e não estar chegando a lugar nenhum. Chegou a hora de pedir ajuda: foi preciso retirar todos os galhos da terra e replantar.

            A terra não era terra, era uma espécie de substrato com muita química. As mudinhas não tinham raízes e nesse solo que não era para profundidades, elas foram morrendo aos poucos. A jiboia tinha um verde lindo e brilhante, e com o passar dos dias, foi amarelando os poucos, murchando, tornando-se opaco, até acinzentar tudo. Ás vezes, é preciso olhar para o solo e perceber que se é possível fazer raízes. Se o mesmo terreno, pode nutrir um novo eu ou aniquila-lo violentamente na promessa de fazê-lo crescer. Quando nos plantamos em territórios inóspitos desse jeito, o perigo não é amarelar. O receio é não retornar a viver com outras cores, fazer caminho com o crescimento das nossas próprias ramificações.

            Criar raízes não significa certeza de crescimento. Nem todo solo é possível florescer. Pode ser que alguns não permitam. Outros podem até ser vendido como um bom produto. Outros são piores do que estes e só de olhar, sabe-se que não é. Criar raízes pode parecer muito custoso para gente, imagine só para uma planta. A grande vantagem disso tudo apesar do caos? É o momento de replantar-se.   

(Texto-protesto) Tenho ficado emotivo.

Tenho ficado mais emotivo com coisas que não foram atingidas na minha pele, mas que, atingiram outras peles, de outras cores, habitantes de outros contextos, de outras histórias, frente à outras lutas, em níveis de desigualdade que eu não conheço. Mas que eu ouço quando ligo o jornal por alguns segundos. Que eu vejo nas imagens das redes sociais. Que eu leio no relato da mãe, da criança, da mulher preta, da trans violentada no asfalto.

Tenho ficado sufocado com mãos que não apertaram a minha garganta, mas, são mãos de policiais que sufocam o corpo de jovens negros, de mulheres baleadas em protesto de suas vidas, pelas vidas de suas crianças, pelas vidas das vidas que não existiam mais, pelo direito de existir. Tenho visto nomes de pessoas mortas nas palavras das pessoas que ficaram que diariamente, não deixam corpos mortos transformarem-se em números. Vida em prosa é como foi e como deve ser lembrada, ainda bem.

Tenho ficado dolorido nas partes íntimas que em mim não foram violentadas, mas, foram violadas na criança de dez anos de idade, que precisou realizar um aborto, e mesmo assim, teve de ouvir pessoas do lado de fora do hospital berrando contra. Tive que ler que “a divindade escreve a vida por linhas tortas”. Ouvi falarem de estupro em criança como bênção. Li berros de um falso moralismo presente prometendo salvação. Se ao menos soubesse que não nasce nada do berro além de violência.

Tenho ficado roxo em meu corpo que não foi atingido por ninguém, mas que leu os hematomas do parceiro abusivo. Que ouviu o berro de socorro no telefonema do 190 e ouviu a ligação cair. Que leu os tapas, os pontapés, as colunas quebradas e uma multidão dizendo que a culpa é dela por conta do batom, do short, do horário à noite, da desobediência, da dieta que não fez, da cor do salto, do tamanho do cabelo, do jeito de andar, do tamanho da roupa, da maquiagem, do corpo.

Tenho ficado mais roxo perto do peito pelas primeiras vezes que nunca presenciei, do primeiro beijo dado pelo abusador, pela primeira vez forçada pelo estuprador que é pai, padrasto, avô, tio, amigo da família, vizinho, primo. De tanto silêncio, fiquei sem voz. A culpada da vez foi a frauda. Tenho visto que ficar dentro de casa nunca foi tão perigoso. Tenho visto que problema respiratório não é só consequência de um vírus, mas, é um entrelaçar de mãos brancas ao redor do pescoço que tem cor, idade, gênero e classe social. Tenho ouvido um discurso nas ruas que não estive lá para dizer, mas que estou aqui para escrever: “é crime constitucional na vida de uma criança de dez anos, que vem sendo estuprada a quatro anos por um tio. Essa criança depois de ser violentada, engravidou fruto desse estrupo e os fundamentalistas estão aqui para dizer que a vida dela não importa, para colocar a vida de uma menina de dez anos em risco. Nós estamos aqui, em um contexto de pandemia, respeitando o isolamento social, usando máscara, para dizer que nossas vidas importam, que a vida dessa menina estuprada importa para toda a sociedade. O aborto legal é um direito. Não vamos abrir mão disso. Não vamos abrir mão da vida de uma menina de dez anos. Gravidez forçada é tortura. Gravidez aos dez anos é morte. É por isso que a gente vai dizer e vai repetir: aborto legal, seguro e gratuito para não morrer. Pela vida da menina e das mulheres”.

nem sempre dá pra ser forte

Tem certos dias que eu começo errando. De erro em erro, desabo em vários mini-erros que vão se estendendo ao longo das horas. O dia não passa. Costuma ser o dia em que a hora na fila não colabora, a hora na aula não passa, naquela reunião infinita de trinta minutos que dura uma vida inteira (e de inteira, saio só o pó) e por assim vai. Nem todo dia tem surpresa ou arco-íris. Nem todo dia pode acontecer o inexplicável. Tem dias que só acontecem o que tem de acontecer. Quer coisa mais chata? Pois é. Pior: pode acontecer o que não queremos o que acontece, ou seja, o imprevisível.  

            Nem todo dia é para ser sorridente. E nem sempre eu tenho que ser forte. Pode ser que a roupa tenha ficado apertada. O humor não cabe na situação. O ânimo evaporou ou é o calor? Isso é cheiro de fumaça de cigarro ou é o estresse subindo? Ás vezes, para tanta gente essas duas coisas acontecem juntas. Um dia, eu acordo e de cara tropeço. Quebro um copo sem perceber na cozinha. Quando se vê, já me irrito. Um e-mail chega do trabalho com mais afazeres, e eu me pergunto: o que faço de mim?

            Esperar passar é uma atitude que geralmente adoto para remédios quando tomo. Sem minha vontade, o remédio prossegue ali, na indústria farmacêutica. Até o remédio me mostra que se eu não tomar um certo grau de atitude, a mais simples, que é ir lá, destacar o remédio da cartela, pegar um copo d’água e botar pra dentro, não vai rolar ação.  A química das soluções, até para um dia ruim, pode ser que esteja entre a atitude que não tomamos e a transformação que temos medo de assumir. O mínimo que faço de mim, é tentar.

            Tem dias que nem se eu parar um pouco vai fazer com que o mundo pare de desmoronar. Ás vezes o caos tem vontade própria mesmo – e nessas horas, eu prefiro atravessar, sem controlar. Sei que no final do dia, uma cama me espera. E eu espero ela, felizão. Isso também é uma atitude. Saber a hora de parar e recuperar o que restou de si mesmo.

Eu e meu corpo

Eu e você nos ocupamos a tanto tempo. Será que nos conhecemos de verdade? Você cresceu conforme o tempo foi passando. Tomou tantas formas. Cresceu pelas bordas, afinou no meio em certo momento. Em outras idades ficou mais largo. Aos meus 13 anos de idade, criou pelos, aos 15, aprendi a odiá-los e hoje aos 21 sei que fazem parte da minha identidade. A cintura nunca diminuiu, pelo contrário. Até hoje, me recordo da professora de educação física dizendo que meninos tem a cintura menor e meninas, o seu oposto. Eu não era nem idêntico ou oposto. Tinha a verossimilhança de mim mesmo, mas será que te conhecia de verdade?

O peito ficou desproporcional, as pernas cresceram e como doíam. Minha avó costumava dizer que uma das piores dores é a do crescimento. A cada passo, ela nos lembra para o quê veio. Você foi crescendo e eu fui ocupando seu espaço. Na primeira vez que vi o mar, você foi meu transporte favorito: grande e espaçoso. Da segunda vez, já mais velho, não via graça em ir para o mar e tinha medo da imensidão desse corpo em que habito. Na terceira vez, eu consegui te mostrar para o sol sem tanto medo. Mas lá estava ele, à espreita dos meus braços cruzados, tampando suas dobras e sua brancura. Será que te conhecia de verdade?

Querido corpo, os outros nunca foram seu maior fã. Você nunca esteve na capa da revista, no desejo do outro. Os lábios que falaram de você não foram os mesmos que falaram do corpo de homens ditos verdadeiros. Querido corpo, falaram tanto de você, nunca sobre você. Diziam até não ser um corpo verdadeiro. Você sobreviveu a dietas, a sugestões de diminuição de peso que nunca pediram licença, sempre foram forjadas. Você foi rachando. Você assistiu pessoas te tocarem sem o menor respeito com sua história, sentiu violências, palavras de ordem. Querido corpo, será que te conheciam de verdade? Se eu pudesse dizer qualquer coisa sobre você, diria a verdade. Diria que eu tinha um medo enorme de te assumir pelo fato de ter que te defender. De ter que revelar sua história, seu para quê nesse mundo e lutar pelo mais óbvio: pelo seu direito de ser. Diria que esse tempo foi o mínimo para juntar forças e me desculpo pelas suas rachaduras: se te quebrei tantas vezes, foi por ter tentado me encaixar no discurso do outro.

Me desculpe por cortar seus horizontes e ter te limitado a tão pouco amor, quando hoje percebo em cada linha tua um jeito diferente de beleza. Se eu soubesse da sua imensidade e profundidade, teria aberto os braços ao invés de apertar sua circunferência em amores tão rasos. Querido corpo, sua beleza apareceu, pelo simples fato de ser a minha única morada verdadeira. Por ser meu mediador de sensações e transformações. Querido corpo, obrigado por você prosseguir aqui, na minha boca, no meu prazer e experiência. Nós nunca nos fomos apresentados devidamente, só cresci junto, mas nunca em diálogo. Prazer, eu mesmo