Eu e você nos ocupamos a tanto tempo. Será que nos conhecemos de verdade? Você cresceu conforme o tempo foi passando. Tomou tantas formas. Cresceu pelas bordas, afinou no meio em certo momento. Em outras idades ficou mais largo. Aos meus 13 anos de idade, criou pelos, aos 15, aprendi a odiá-los e hoje aos 21 sei que fazem parte da minha identidade. A cintura nunca diminuiu, pelo contrário. Até hoje, me recordo da professora de educação física dizendo que meninos tem a cintura menor e meninas, o seu oposto. Eu não era nem idêntico ou oposto. Tinha a verossimilhança de mim mesmo, mas será que te conhecia de verdade?
O peito ficou desproporcional, as pernas cresceram e como doíam. Minha avó costumava dizer que uma das piores dores é a do crescimento. A cada passo, ela nos lembra para o quê veio. Você foi crescendo e eu fui ocupando seu espaço. Na primeira vez que vi o mar, você foi meu transporte favorito: grande e espaçoso. Da segunda vez, já mais velho, não via graça em ir para o mar e tinha medo da imensidão desse corpo em que habito. Na terceira vez, eu consegui te mostrar para o sol sem tanto medo. Mas lá estava ele, à espreita dos meus braços cruzados, tampando suas dobras e sua brancura. Será que te conhecia de verdade?
Querido corpo, os outros nunca foram seu maior fã. Você nunca esteve na capa da revista, no desejo do outro. Os lábios que falaram de você não foram os mesmos que falaram do corpo de homens ditos verdadeiros. Querido corpo, falaram tanto de você, nunca sobre você. Diziam até não ser um corpo verdadeiro. Você sobreviveu a dietas, a sugestões de diminuição de peso que nunca pediram licença, sempre foram forjadas. Você foi rachando. Você assistiu pessoas te tocarem sem o menor respeito com sua história, sentiu violências, palavras de ordem. Querido corpo, será que te conheciam de verdade? Se eu pudesse dizer qualquer coisa sobre você, diria a verdade. Diria que eu tinha um medo enorme de te assumir pelo fato de ter que te defender. De ter que revelar sua história, seu para quê nesse mundo e lutar pelo mais óbvio: pelo seu direito de ser. Diria que esse tempo foi o mínimo para juntar forças e me desculpo pelas suas rachaduras: se te quebrei tantas vezes, foi por ter tentado me encaixar no discurso do outro.

Me desculpe por cortar seus horizontes e ter te limitado a tão pouco amor, quando hoje percebo em cada linha tua um jeito diferente de beleza. Se eu soubesse da sua imensidade e profundidade, teria aberto os braços ao invés de apertar sua circunferência em amores tão rasos. Querido corpo, sua beleza apareceu, pelo simples fato de ser a minha única morada verdadeira. Por ser meu mediador de sensações e transformações. Querido corpo, obrigado por você prosseguir aqui, na minha boca, no meu prazer e experiência. Nós nunca nos fomos apresentados devidamente, só cresci junto, mas nunca em diálogo. Prazer, eu mesmo