Escrever, definitivamente, não é uma atitude neutra. Pelos contornos das palavras manifestamos tantas cenas que permeiam a nossa rotina, tantos sentimentos, inúmeras ideias que flutuam por aí. Sendo bem sartreano, não há rastro humano que não deixe marca e, cá entre nós dois, escrever, pra mim, é um dos mais valiosos. Costumo dizer que não é a primeira impressão que fica, mas, são as últimas palavras que reverberam e quase sempre são as únicas que ficam na minha memória. “Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos.” As últimas de Vírginia Woolf; “Ainda é tempo de morangos” as últimas do narrador Rodrigo S. M. da novela A Hora da Estrela, “fique em paz antes de partir” um trecho de um filme que uma amiga me contou presencialmente, antes da pandemia.
Por falar em amizades, venho a essa aqui. Tenho uma poetisa e professora (e várias outras coisas) como amiga e costumamos compartilhar poesia e texto um do outro. Quando ela disponibiliza um texto, rotineiramente leio, aponto críticas ou só sinto. Ela, por sua vez, se afeta também, me aponta erros, outras vezes, só se permite. Nesse encontro que um sente e outro permite-se sentir, a gente vai construindo essa amizade.
Esses tempos, ela havia escrito um texto muito único sobre a temporalidade das coisas e de como existir é sempre um acontecimento do agora, que nos impele a escolher. Eu poderia referenciar ela como uma existencialista, mas, como boa leonina, não iria rotular-se jamais. Ao ler o texto, comentei com ela como foi intenso a realização da leitura e comento de outros textos que escrevi a tanto tempo, nos quais hoje, não fazem mais sentido e por isso, mencionei ter apagado. Lá vem ela e me lança: “olha, acho que você deveria desapegar”. Explico.

Ela menciona que já escreveu vários textos que hoje não curte. Nem por isso os excluiu. Mantem eles lá, no seu porta-versos. A intenção não é fazer coletânea dos melhores poemas, nada disso, e pensando bem, até nisso o capitalismo está, né? Enfim, retornando. Desde o começo, o seu desejo em escrever não era gostar para sempre, mas, o plano era escrever enquanto podia, por fazer sentido. Desapegar foi a palavra-chave do momento para eu parar de selecionar os melhores e ver as nuances da onde eu parti para onde eu estou. E aí, tudo ficou com mais cara de realidade ao invés de antologia.
A nossa história com algo que amamos, principalmente quando se trata de arte, não começa da simplicidade, mas do nosso esforço em querer ser um Shakespeare cafona e inseguro que se camufla em umas palavras usadas no século passado. Por um instante, a gente se esquece das nossas próprias palavras, do nosso jeito, da coloquialidade. Simplicidade nunca foi tão difícil. Depois dessa conversa, eu fui direto no arquivo mais antigo do meu computador e alguns rascunhos que tenho em casa rever o que eu escrevia. Dito e feito. Capenga, óbvio, e a alguns passos de ser meu.