Notre Dame e o desmoronamento

Não precisa morrer pra ver Deus
Não precisa sofrer pra saber
O que é melhor pra você

(Criolo)

Já fazem alguns meses que a notícia do incêndio e desabamento de algumas partes da Catedral de Notre Dame emocionou e despontou questionamentos pelos espectadores locais e no mundo. É surpreendente o que a deterioração de um edifício histórico pode fazer com a gente. Escancara a brevidade das coisas, a força de uma construção que sobreviveu a intempéries do tempo, às revoluções no transcorrer de oitocentos anos… É muito tempo para uma vida, pelo menos, que podemos significar de uma vida forte, resistente. Mas, parece que a história não caminha por esse rumo.

Mas, e quando o edifício diz respeito a nossa história de vida_ Que pode não ter lá seus oitocentos anos de vida e sobrevivido a invasão fascista. Pode ser que nem seja um monumento turístico (salvo alguns modelo

            Não é exclusivo de 2019 (véspera de anos 20) o chamamento de ajuda do edifício. Victor Hugo, escritor francês, quase como um presságio, já denunciava algumas fragilidades da estrutura, inclusive, retratando um incêndio quando o quasímodo olha para os sinos da catedral, no aniversário de seus primeiros cem aninhos de existência. Quem diria que oito centenários seriam necessários para despertar atenção dos turistas e do governo. Quem diria que seria um incêndio, o agente disparador de ajuda. Quem diria que só aí, faríamos alguma coisa. Quem diria, né?

            Mas, a questão do texto não é essa. Notre Dame recebeu doações ao redor do mundo e como posto pelo governo de Paris, a cidade tem esse poder de reconstruir-se. Refazer-se a partir do que ficou. Telas foram salvas, relíquias históricas estão preservadas (algumas, pelo menos) e outras coisas lindas que só vemos pelos livros de história – e que outros podem ir lá ver se não é fake news. Mas, e quando o edifício diz respeito a nossa história de vida? Que pode não ter lá seus oitocentos anos de vida e sobrevivido a invasão fascista. Pode ser que nem seja um monumento turístico (salvo alguns modelos de instagram), mas, é a história que sustenta (e reinventa) quem somos. E aí?

            Notre Dame é uma questão política e social socorrida pelo mundo. E nós? What about us, já diria Pink. Desmoronar para entender que não somos resistentes a tudo, talvez não seja uma questão de resiliência, e sim de fragilidade. Desmoronar para tentar refazer, também não nos dá garantia de que haverá algo preservado para reconstruir. Não precisamos romantizar o sofrimento do outro para nos darmos conta dos trancos e barrancos que enfrentamos todos os dias. Não precisamos dizer “tá pago” quando a conta desse cálculo para reformar a vida é muito maior e mais complexo. Notre Dame é só um recurso, para dizer, nesse texto todo, que não precisamos ter noção da fragilidade da vida só quando ela desmorona na frente dos nossos olhos: a vida é frágil muito antes disso. Das preciosidades que sobram do seu desmoronamento não sabemos se dá pra salvar. Das necessidades, não se sabe se dá pra esperar oitocentos anos.

Quando @ personagem sai da série e você, fica.

Let’s waste time
Chasing cars
Around our heads

I need your grace
To remind me
To find my own

(Chasing Cars)

Ter uma série favorita é um privilégio. Às vezes um vício, outras vezes uma alternativa para procrastinar, mas, vamos desenvolver sobre o primeiro tópico. A minha, é Grey’s Anatomy, a série que a grande maioria das pessoas torcem o nariz com base na quantidade interminável de temporadas e claro, por muitos personagens irem saindo ao longo da série. Isso não é spoiler para ninguém, todavia, pode ser um problema para muitas pessoas, e é aí, onde o perigo faz sua morada.

Logo em seguida, quando anunciava estar vendo a série a alguém, vinha aquele olhar da pessoa que já assistiu. Um olhar cuja intenção era de conforto; para mim, torna-se mais de desavisado. “Já te digo antes, não se apegue aos personagens, porque ou eles morrem ou eles saem da série”.  Contextualizando, é uma série planejada em um cotidiano hospitalar em Seattle, expondo os conflitos dos médicos cirurgiões, de residentes e além disso, com narrações reflexivas sobre a vida e sobretudo, a morte. É lógico que esbarramos com a perda, de todos os tipos. Essa minha síntese é bastante rasa, então, eu verdadeiramente peço que vá ver a série, ou pelo menos uma resenha sobre, caso não se contente com isso.

O caminho que adentramos no começo não é o mesmo a percorrer para sair. Aprendemos a (re)existir sem alguém e isso machuca, é um grão de areia dentro da ostra, mas, já diria Rubem Alves, sem dor, grão de areia nã

Acontece que, o exercício de perder nunca foi tão bem visto. As fragilidades das nossas condições berram, mostram o quanto precisamos melhorar, seja na competição de notas do colégio, da competição entre colegas, vestibulares, concursos em geral, corridas, uma lista infinita de coisas pela qual concorremos. Quando a perda é uma relação, outros tons são vividos. Nós percebemos que lutamos contra tudo menos o tempo vivido com o outro, nos descobrimos vulneráveis, a sala fica vazia e a tentativa de preencher a ausência, talvez não seja a melhor. O caminho que adentramos no começo não é o mesmo a percorrer para sair. Aprendemos a (re)existir sem alguém e isso machuca, é um grão de areia dentro da ostra, mas, já diria Rubem Alves, sem dor, grão de areia não faz pérola. Outras vezes, as pessoas simplesmente saem das nossas vidas e ficamos mais leves – e tudo bem também.

Será que viver bem é viver na apatia? Por uma vida sem sofrimento, nós precisamos deixar de nos relacionar então? Eu não consigo. Quem ama, algum dia, corre o risco de perder alguém, todavia, não vive a ameaça de não receber nada em troca. Seja um sorriso despertado, abraço bem apertado, uma vida inteira em poucos meses, coisas que só a troca faz. Algum dia, isso termina e quando se vai, nos transforma, pelos afetos que ficaram. Como bem expõe a série, não há como crescer, sem experienciar a perda de alguém, de uma mãe, um melhor amigo, seu grande amor. Mas respira fundo, somos sobre-viventes, aprendemos com a vida ao lado e a vida que fica, assim que se parte. Não deixe de ver a série só por isso, ela é ótima e eu, veementemente, indico.

Visto gg e você pp.

Estou sempre dando adeus:
também ao desencontro e ao desencanto.

Estou sempre me despedindo
do ponto de partida que me lança de si,
do ponto de chegada que nunca é aqui

(Lya Luft, Dizendo Adeus) 

          Escolha uma lição de vida que você gostaria de ter dado a você mesmo(a) em um momento muito específico. Recoloque (se puder) aquele ponto final, pesado demais porém necessário, naquele ato que te feriu – na pessoa que o executou. Troque o genérico pelo original um dia antes do falecimento do ente querido que necessitava desse remédio. Passe as camisetas antes de usa-las para garantir a boa impressão para a pessoa certa, no momento certo, na hora certa. Escolha uma das mentiras ditas na sua existência. Olhe para as suas unhas e se pergunte o que houve com elas. Adote uma previdência privada. Corra de vez em quando para as suas veias não entupirem. Morra de amor nos verões e ressuscite (se puder) nas estações de um tempo que dizem ser tão curto para os amores que irão chegar. A vida é um caminho de mão única, não fique parado no meio da rodovia. Será?

perigosamente, costura-se cenas de um passado irrepetível baseado na esperança de acertar lá na frente. ajusta-se a casca, define-se as curvas do corpo – e som

          Eu poderia listar alguns trechos que nós, roteiristas de nós mesmos, empenhados nesse ofício (risos) de criar dicas sobre o previsto futuro (risos). Dicas, olhando de perto, que não servem para o nosso tamanho de vida. Não digo que não vale a pena o esforço, criatividade é exercício. Eu, longe de promover um sedentarismo criativo em você, realmente desejo esse audacioso exercício de traçar metas de vida. Porém, veja bem: a dica parece muito aquela blusa estilo-elo-perdido, linda e você, sem dúvida, quer vestir. Lógico, reluz, é fácil de lavar, apresenta-se em oferta, quase um cinquenta porcento de desconto. Em primeiros olhares, é um flerte quebra-galho. Só que a bluza é pp e você é gg. Isso eu digo para vidas fartas, cheias de surpresas, solavancos, avanços, esperanças e desesperanças, entretanto, cabe em todos os shapes possíveis.

          Muitas dicas de como, onde e porquê, nos seduzem a ponto de não nos alertar para aquele destemido e inexorável talvez. Escrever e reconhecer isso, não é uma das delícias que desejei enquanto vivente desse mundo rodamoinho, roda gigante. Entretanto, ter a certeza da incerteza como uma confidente fiel, caminhando ao lado dessa mania de encaixotar quem somos, pode ser uma alternativa mais autentica. Apenas creio ser desleal entrar pela porta errada nas fases da vida, pensando e planejando passos que podem não ser realizados. Passos marcados por outras pegadas, não sendo as minhas ainda – e podendo nem vir a ser. Caminhos traçados para uma linearidade que não cabem para as ondulações do que é vital. Perigosamente, costura-se cenas de um passado irrepetível baseado na esperança de acertar lá na frente (onde? eu também não sei). Ajusta-se a casca, define-se as curvas do corpo – e somos bons nisso, muito bons. Destilamos todas essas dicas, todos os dias, para nós mesmos, para os outros, na tentativa de poder fazer o que achamos certo diante do que vai acontecer. Mas… eu conto ou você conta?

Quando a fantasia, no mundo de magia, entrou na dança

       “Dizem que alegria não faz mal, por isso entrei sem avisar” (O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas)

          Fazia um calor de quarenta e dois graus. Era um dos últimos dias do ano e o vento era o anfitrião mais travesso daquele momento, corria pelo quintal, passeava pelas saias, entornava os fios de cabelos que ficavam de pé, iguais aos homens que cantarolavam naquela roda de sanfona e o suor… transbordava na feição de todo mundo, escorrendo aos pingos, os risos de todos ali. Tudo ilustrava o verão: muito calor e melodia, das boas e antigas melodias.

         Finais de ano costumam ter sua magia. Talvez não venham das luzes nas praças, pode ser que não sejam as fantasias, os bonecos de neve feitos de isopor e a nossa tentativa frustrada de americanizar os feriados. Magia, na minha duvidosa opinião, é a nossa capacidade de ver resquícios de vida onde ela simplesmente aparenta não estar. Só aparenta, todavia, a vida costuma ser sorrateira quando quer, é claro. De repente, ela aparece. Como eu disse, a magia é habitual em finais de ano. Então retornemos a cena:

          Nesse mesmo dia de verão, um senhor com os olhinhos fechados sentiu vontade de dançar. Sinal positivo para o sanfoneiro, que não cessava de tocar. Calhou da moça, na sua frente, ter a mesma vontade. Reciprocidade é inspirador, não é? O sanfoneiro começa outra cantiga – de uma época na qual não pertenci, mas, naquele momento, tive a oportunidade de vivenciar na minha forma penetra de ser. Concede-me essa dança? Ela guiava ele, rodopiando no quintal. Ele, de olhos cegos e ela, sorridente, sorrindo com os passos. Naquela tarde ensolarada, os dois rodopiavam sem esbarrar em ninguém além do próprio desejo de dançar. As pessoas ao redor aplaudiam cada vez mais alto, fazendo crescer a música, os passos e os sorrisos.  Terminando a música, ele agradeceu a ela e aquela tarde ficou ecoando esse momento, tão mágico.

[...] a magia pode ser aquele minuto em que decidimos andar distraído, quando nos permitimos se surpreender com a vida. (1)

           O que dançar tem de mágico? Reformulando: o que não há de mágico nisso tudo? No final das contas, a magia pode ser aquele minuto que decidimos andar distraído, quando nos permitimos se surpreender com a vida. É parecido com o que o John Lennon cantarolava (dizia) em uma música dedicada ao filho: a vida é o que acontece contigo enquanto você está ocupado fazendo outros planos. A magia não é sistematizada, ela tem outros jeitos de existir. Arrepia, emociona, destrona o reinado do ideal para dar lugar ao plebeu livre, a despretensão. Fora do castelo pode ser mais surpreendente do que reinar o que não se pode ser controlado. Finais de ano, como eu disse, costumam ser, por alguns instantes, a dose precisa da magia que é necessário levar para seguir adiante.

Danço eu, dança você na dança da solidão.

[…] parece que não vês que as palavras são rótulos que se pegam às cousas, não são as cousas, nunca saberás como são as cousas, nem sequer que nomes são na realidade os seus, porque os nomes que lhes deste não são mais do que isso, os nomes que lhes destes. (José Saramago, As Intermitências da Morte)

          A dúvida costuma ser a peça que incomoda. Não é uma pedra enroscada, que de hora em hora, vai perfurando o calcanhar. Pelo contrário, vejo ela mais como um acontecimento: eis que surge um ponto de interrogação, ás vezes pequeno, em outros momentos chegam ser maiores do que eu, entretanto, para além do tamanho, costumam me movimentar para um lugar (talvez) inédito ou sem pistas. Para um lugar nunca antes habitado. Dessa vez, essa dúvida me transporta para uma pergunta feita ao longo desse ano: será que eu tenho a coragem de dar conta de ser só? O que é ser só? Será que eu dou conta de escrever um texto sobre isso, depois de um tempo tão distante de mim diante do papel?

        O passo mais importante, talvez seja esse. Hello, it’s me, prazer e perdoe-me a distância. Em tese, a palavra sozinho é proveniente do latim, solus; designando aquele/a que está só, carece de outro/a. Ser sozinho, é também uma questão filosófica, se por alguns instantes, relembrarmos de uma das questões levantadas pelo existencialismo. Estar só no mundo, além de ser uma condição do próprio ser, é também característica fundamental para fazer-se nesse mundo por meio de nossas escolhas e por sua vez, assumir a responsabilidade frente a nossa própria existência. A questão de ser só, não é novidade nesse mundo mundo vasto mundo.

           Estar só costuma aparecer nos fragmentos do dia – e é por aí, que quero adentrar. É o momento em que a casa se silencia. Talvez, seja aquela parte da cama vazia a muito tempo. É a experiência (ainda) nunca vivida, é o filme de romance que não passa na sua tevê (mesmo que passe nas tevês da maioria das outras pessoas). Outras vezes, é não ter quem cair nos braços depois de um dia exaustivo e dizer que “amanhã é sábado”. É não ter com quem dividir a conta: você que se arranje para pagar. Há cura para solidão? Na verdade, as perguntas que circundam essa condição, costumam ser as mesmas. Tal como as respostas. De tanto lutar e relutar… a gente se cansa dos mesmos placebos. Solidão não é doença, querido papel, eu é quem sou teimoso.

Primeiro texto

           Não há só poeira e esquecimento do mundo quando se está só. É um instante para reconectar com quem anda a tanto tempo preenchendo vazios com outros vazios (você). É um estalo rápido que abre a percepção de que não tem ninguém na cozinha e você pode dançar Macarena e rir das próprias estranhezas – e que a risada, é mais gostosa, quando não há sentido nenhum. É quando você pode reescrever o script da sua vida, apagar, rabiscar, refazer e todos os verbos que te colocam em um caminho, seja ele qual for, mas, que te façam pensar no possível e no impossível. Seja no País das Maravilhas ou se dar conta de que você pode, consegue: agora, o quê? É sempre um mistério.

          Porque nunca disseram isso? Custava escrever umas músicas sobre estar só que também entendesse esse momento, como uma chance de sermos melhores? O que verdadeiramente acontece é que, de tropeço em tropeço, o cansaço vai tornando-se presente. De tanto tentar encaixar, encontrar a metade faltante, a tampa da panela, o laço vermelho do outro lado do mundo, o oposto que atrai, o príncipe da meia-noite, a carruagem que te tira do real para a realeza, o encontro ideal… vamos percebendo que esse conto de fadas, foi escrito por outros e outras, com a sua própria beleza e abominação. Do teu texto, justamente esse, cabem as tuas palavras e vivências. Que sentido faz com o fato de estar só? Bem, é você quem vai viver para significar.